
escrevo todos os dias
por teimosia ou por insônia
e sempre as mesmas palavras
Os poetas são como os cegos,
podem ver na escuridão
escrevem sempre no escuro
Viver é fácil. Conviver que é difícil.

Naquela casa da esquina.
Minha avó paterna fazia quitandas
Os amigos dos amigos dos 10 filhos
Se reuniam para contar histórias
E jogar conversa fora.
Naquela casa da esquina.
Os carteiros antes de entregarem as cartas
Passavam por lá para tomar um cafezinho
Ou beber um copo de água fresca para matar a sede.
Naquela esquina passavam os bois e as boiadas.
Até o trem, em um passado bem distante,
Já passou vagarosamente.
Naquela casa da esquina vinham os doentes
De toda cidade e redondezas
Para tratar das febres e dos sarampos
Com os remédios caseiros e manipulados.
Naquela esquina a casa amanhecia
Com a cantoria dos pássaros
E assistia a tarde esconder
Mansamente atrás do morro.
Naquela casa da esquina, eu nasci.
Se você quer alguma coisa,
acredite que pode alcançar
basta abrir as mãos,
dar os primeiros passos,
persistir no caminho
e acordar bem cedo.
É a brisa da manhã
que alimenta os sonhos.
A vida é matutina.
Se você quer alguma
acorda cedo e olha para cima.
Ninguém atravessa o deserto
se não tiver coragem
de enfrentar o sol
que brilha o dia inteiro.
Ninguém alcança seus objetivos
se não correr atrás dos sonhos
que um dia ousou contar
quando o dia amanheceu.
Ninguém chega a lugar algum
olhando a estrada vazia
mas não põe de verdade
os pés no caminho de terra batida.

a abelha procura o mel
as noites avançam para a claridade
o poema não substitui um beijo
muito além da noite
muito aquém da aurora
é na escuridão que nascem as estrelas
o poema se faz sem a menor sutileza
e se me escapa como um pássaro
ficam resquícios nas pontas dos dedos
o que restou é irrisório:
um facho de luz, uma semente
e o primeiro dia do ano-novo
nasci entre montanhas e rios
a noite não precisa de estrelas
ouço os ventos e me calo no silêncio
Tudo que existe entre a alma e o olhar
por mais claro que seja não decifra
– a vida não cabe nas palavras
Tudo que tenho são essas mãos vazias
os ouvidos atentos à quietude da alma
e os olhos fixos no vazio do dia
É pelos atalhos que vou mais seguro
porque toda distância tem um fim
e todos os caminhos levam ao mesmo infinito
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