12 de novembro de 2007

haicais










escrevo todos os dias
por teimosia ou por insônia
e sempre as mesmas palavras
















Os poetas são como os cegos,
podem ver na escuridão
escrevem sempre no escuro

8 de novembro de 2007

A casa da esquina












Naquela casa da esquina.
Minha avó paterna fazia quitandas
Os amigos dos amigos dos 10 filhos
Se reuniam para contar histórias
E jogar conversa fora.


Naquela casa da esquina.
Os carteiros antes de entregarem as cartas
Passavam por lá para tomar um cafezinho
Ou beber um copo de água fresca para matar a sede.


Naquela esquina passavam os bois e as boiadas.
Até o trem, em um passado bem distante,
Já passou vagarosamente.


Naquela casa da esquina vinham os doentes
De toda cidade e redondezas
Para tratar das febres e dos sarampos
Com os remédios caseiros e manipulados.


Naquela esquina a casa amanhecia
Com a cantoria dos pássaros
E assistia a tarde esconder
Mansamente atrás do morro.


Naquela casa da esquina, eu nasci.

6 de novembro de 2007

Acorda cedo










Se você quer alguma coisa,
acredite que pode alcançar
basta abrir as mãos,
dar os primeiros passos,
persistir no caminho
e acordar bem cedo.

É a brisa da manhã
que alimenta os sonhos.

A vida é matutina.

Se você quer alguma
acorda cedo e olha para cima.

Travessia











Ninguém atravessa o deserto
se não tiver coragem
de enfrentar o sol
que brilha o dia inteiro.

Ninguém alcança seus objetivos
se não correr atrás dos sonhos
que um dia ousou contar
quando o dia amanheceu.

Ninguém chega a lugar algum
olhando a estrada vazia
mas não põe de verdade
os pés no caminho de terra batida.

3 de novembro de 2007

Bodas de Prata











minha mulher e eu somos dois em um
nem mesmo o distante amanhã
separa o que ontem eram dois e hoje um.

haicais













a abelha procura o mel
as noites avançam para a claridade
o poema não substitui um beijo

muito além da noite
muito aquém da aurora
é na escuridão que nascem as estrelas

o poema se faz sem a menor sutileza
e se me escapa como um pássaro
ficam resquícios nas pontas dos dedos

o que restou é irrisório:
um facho de luz, uma semente
e o primeiro dia do ano-novo

nasci entre montanhas e rios
a noite não precisa de estrelas
ouço os ventos e me calo no silêncio

Tudo que existe entre a alma e o olhar
por mais claro que seja não decifra
– a vida não cabe nas palavras

Tudo que tenho são essas mãos vazias
os ouvidos atentos à quietude da alma
e os olhos fixos no vazio do dia

É pelos atalhos que vou mais seguro
porque toda distância tem um fim
e todos os caminhos levam ao mesmo infinito

2 de novembro de 2007

Haicais





as águias conhecem as montanhas
os lobos sabem apreciar a noite
só um homem em paz suporta o silêncio

As nossas palavras silenciosas
podem tocar a brisa que cobre a relva
mas não podem mover um coração insensível

Passa rápido o que se pensa
fica para sempre o que se escreve
só sinto vertigem quando penso