16 de junho de 2009

A senhora das tardes

In memorium à dona Lucy Milagres Calhau,
mulher que em toda sua vida dedicou à família e
sempre soube acolher os amigos com elegância e com coração.















Antes que a chuva caia
E a minha vida também
Antes que a ave cale seu canto breve
Antes que a aragem da brisa
Atravesse o jardim florido.
Antes que morra dentro de mim
A lembrança da senhora das tardes.

Antes do fim do dia da minha lucidez
Antes que as luas e as noites quase mágicas
Morram com o calor do dia seguinte
Quero guardar aquelas alegrias infantes
Quando minha mãe com cheiro de alfazema
Anunciava que iria visitar a senhora das tardes.

Antes que eu perca o gosto das tardes
Antes que falte água límpida e clara
Para regar a sementeira da minha memória.
Antes que o paladar ocre das desilusões
E das sombras malditas me embruteça
Quero sentir a delicadeza da senhora das tardes
E nunca perder a doçura das guloseimas em compotas
Misturada com a suavidade da sua voz meiga
Quero pronunciar todas tardes seu nome Lucy

13 de junho de 2009

Não adianta

Dia nublado
É igual pardal
Na cerca do quintal.
Não tem música.

Noite sem estrelas
É igual paixão
Desenfreada e louca.
Sem gozo e sem sexo.

Trilhos sem trem
É igual blues cantado
Por uma dupla sertaneja.

Aprendi ao longo da vida
Que ela pode ser boa
Mas tem receitas
Não adianta
Já vêm todas (quase) prontas.

12 de junho de 2009

Não cabe

Chorar, eu já chorei muito
Mas quem nunca chorou
Pelo leite derramado?
Vem a noite
Chega a madrugada
E tudo passa.

A vida é assim mesmo.
Tudo, um dia, se ajeita
Só não tem jeito
É a morte
Porque só a morte
Não cabe nos meus sonhos.

11 de junho de 2009

Que alegria!

Minha vó Filinha
Tinha uma cabeleira
Tão grande e grisalha.
As tardes que ela penteava
Ficavam tão longas e infinitas
Quanto seus próprios cabelos.

Eu ficava, de longe,
Pensando quem tem
Uma cabeleira daquele tamanho
Não morre nunca.

O dia que ela cortou
Os cabelos longos e grisalhos
Chorei outra tarde inteira
Pensando que ela iria morrer.

E ela não morreu, que alegria!

Foi a primeira coisa
Que aprendi de verdade:
A vida é muito mais
Que uma cabeleira.

10 de junho de 2009

Só viajo de trem



Já tive muita pressa
Hoje não tenho mais
A noite é muito maior
Que meu sonho
O caminho é muito mais longo
Que minhas passadas.

Hoje eu só quero paz
E nada mais
Só viajo de trem
Porque ele vai sempre devagar.

9 de junho de 2009

Meus mortos

Eu não tenho medo
Dos mortos, esses coitados;
Não voltam mais.
Eu tenho medo
Das chuvas, essas sim;
Sempre voltam
Trazendo trovões e raios.

Em toda minha vida
Meus mortos
Só me deixaram saudades
Mas são tantas saudades
Que me esqueço
Do medo das chuvas.

4 de junho de 2009

Ouro e prata

Meu amor, primeiro,
Veio só as palavras;
Depois, mais palavras;
E mais um outro tanto,
De palavras.
Ora, era a noite
Como cenário e fundo.
Ora, era o barulho do rio
Como melodia e sombra.
E a lua imponente e sóbria
Como testemunha
Das juras e promessas
E aí, então, veio o resto e tudo.

E hoje, meu amor é alquimia
Em forma de aliança
Fundida em ouro e prata.