31 de março de 2014

31 de março


nunca fui comunista
e muito menos subversivo

nunca tive bandeira
nem da direita nem da esquerda

nunca pus uma arma na mão
só muito amor no coração

nunca prestei serviço militar
mas, não corri da batalha!

quem viveu, nunca esquece
quem ouviu falar, debate

estive lá dentro, sim!
digo isso sem mágoa nem receio

hoje posso dormir tranquilo
porque amanhã não será 1º de abril

29 de março de 2014

ainda

ainda sinto o cheiro de mato
dos pastos do jô raminho

ainda sinto as batidas do meu coração
em compasso com o estouro da boiada

ainda guardo nas retinas dos meus olhos
as charretes coloridas da praça da matriz


ainda tenho as cicatrizes nas pernas
dos jogos no campinho da estação velha

ainda correm pelo meu corpo franzino
as águas barrentas do rio doce

ainda escuto a sirene do recreio
no pátio iluminado do ginásio tiradentes


ainda sei desviar dos paralelepípedos
que eram colocados no calçamento das ruas

ainda hoje me sinto inteiro em cada poro
e em cada parte de mim porque tudo isso vivi

25 de março de 2014

haicais


A chuva da tarde
trouxe mais cedo
a escuridão da noite
 
a goiabeira do vizinho
está sempre carregada
de enormes frutos

 
as rolinhas comem
o farelo que sobrou
do coxo dos porcos

22 de março de 2014

lugar-comum

fora é tão longe
dentro é tão fundo
mas os poetas ainda insistem
mergulhando dentro de si
e vertiginosamente
se afastam de tudo que está fora
sabendo que é entorno  e dentro
que estão o belo e o inusitado

20 de março de 2014

outono

a chegada do outono às 13h57 desta quinta-feira (20/3/2014)

o outono começa hoje
não há aceno nem despedidas
só a moça do tempo lembrou
os pássaros continuam cantando
nas copas das árvores
os dias não serão mais curtos
nem as noites mais longas

haicai


A terra precisando
de chuva, muita chuva.
Hoje, começa o outono.


o dia de são josé traz
muita esperança para o campo -
promessa de chuva e fartura

19 de março de 2014

Único e definitivo


É na margem desse rio
que busco um sentido de mim,
único e definitivo,
que me permita
calar a saudade
dos gélidos tempos perdidos
que passei distante
procurando espaços
e esbarrando nos vazios
perseguindo fama e holofotes
e encontrando sombras e nuvens

hoje, cansado e velho, desejo navegar
não por terras estrangeiras,
como muitos aventuraram,
apenas não quero mais
perder-me em cada porto
que não encontro