17/07/2009

Um montão de silêncio

Requiem aeternam ('repouso eterno') para Rita Pulcéria Pinto

















Minha sogra já não está aqui,

entre nós.
Não levou nada daqui.
Só muitos anos de vida
e um semblante de paz.
Mas deixou em minha casa espalhados
um baú de guardados,
muitos panos de prato,
vários vasilhames esmaltados,
um cavaquinho sem cordas,
um caixote de roupas limpas
e um montão de silêncio
que não cabe na sala, na cozinha
e, muito menos, no meu coração.

16/07/2009

Jamais...

In memorium à Magali Guerra de Paula, minha cunhada

“... jamais poderemos esquecê-la”.
todas as vezes que alguém
da minha família vai embora
é mais uma palavra sem sentido
nos meus versos e nos meus poemas.
todas as vezes que uma estrela
se apaga no céu da minha existência
o meu mundo fica um pouco mais escuro.
todas as vezes que um paralepipedo
da rua da minha cidade se perde
é mais um buraco que aparece.
todas as vezes que alguém se despede
perco as minhas asas e a minha liberdade.


“... jamais poderemos esquecê-la”.
mesmo sabendo que ela foi para lugares
onde todos são muito mais felizes
e não precisam de agasalhos nem guarda-chuvas.

15/07/2009

As borboletas




















Que vida curta

Têm as borboletas
São quase quinzenais
E morrem ainda coloridas
Têm o tempo muito curto, sim!
Mas sempre proveitoso
Porque não pensam como nós
Seres pretensiosos de imortalidade
Entretanto, passamos quase todo tempo
Cheio de dias vazios e descoloridos.

E também morremos...
Como as borboletas.

13/07/2009

As lembranças













À sombra de uma
enorme mangueira
coberta de flores
vi minha vida
florescer!

Ao redor das fogueiras
nas festas juninas
recheadas de quitutes
vi meu mundo
aparecer!

Nas rodas de ciranda,
nos contos de fadas
e nas histórias de assombrações
vi meu medo
desaparecer!

Hoje só uma fração
de segundo me separa
dessas lembranças.

Os sinos

















Os sinos batiam
no alto da igreja.
A cidade acordava.
Não era festa.
Não era enterro.
Era apenas a ladainha
do Salve Rainha.

Era assim a vida da cidade.
Não era longa nem breve.
Apenas as contas de cristal
de um comprido Rosário.

O sonho, tão raro!
O amor, tão certo!
O paraíso, apesar de claro
era coisa para a outra vida.

Era difícil continuar caminhando
por aquelas ruas, praças
e vielas de paralepipedos
onde o profanos e o divino
se tocavam intimamente.
Tudo era apenas as batidas
dos antigos sinos da igreja.

Os sinos batiam novamente
A cidade dormia
E a escuridão invadia...
... a cidade ... o mundo.

09/07/2009

haicais















o espelho reflete
o rosto cansado
e as marcas do tempo

















o silêncio guarda sons
que a noite escura
escondeu a vida toda






















as tardes da minha infância
guardam as cigarras
que cantam até morrer

06/07/2009

A noite

A noite tem seus fantasmas
para assombrar os homens
que não acreditam em nada.

A noite tem seus mistérios
para esconder dos homens
o verdadeiro sentido da vida.

A noite tem seus hóspedes
para enganar os homens
que só acreditam no prazer.